“Agitação da idade” ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?

Será que ele é hiperativo?

Essa desatenção é normal?

… dúvidas que mais de 5% dos pais e mães brasileiros terão ao longo da infância de seus filhos.

Se algum desses questionamentos já passou pela sua cabeça, saiba que são dúvidas muito comuns no consultório do neuropediatra. Essas perguntas muitas vezes atormentam pais e educadores durante a convivência com uma criança ou adolescente.

Primeiramente, é importante explicar um pouco sobre o que é o TDAH.

O TDAH é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento que tem uma prevalência na população pediátrica em torno de 5,3%. Trata-se de um transtorno com bases neurobiológicas definidas, com forte influência genética e que tem sua origem durante o período do desenvolvimento cerebral – desde a gestação até os primeiros anos de vida da criança.

No cérebro dos pacientes com TDAH, há alterações no nível de neurotransmissores que incluem a redução de dopamina e noradrenalina em determinadas regiões cerebrais. A redução desses neurotransmissores em regiões específicas culmina com o aparecimento dos sintomas principais, que são a desatenção, hiperatividade e impulsividade.

O quadro clássico ocorre com mais frequência em meninos. É comum eu receber um paciente como o João, de 7 anos, que está tendo dificuldade durante o período de alfabetização escolar. A professora reclama que ele não termina as lições, não para no lugar, fica mexendo pés e mãos na carteira, com frequência interrompe a fala da professora na sala de aula e não está tendo um bom desempenho escolar.

A mãe se queixa de que ele é desorganizado em casa, perde o material escolar com frequência e, muitas vezes, comete erros por falta de atenção. Ela fica cansada porque ele “parece estar sempre ligado no 220” e se incomoda porque o João parece “preguiçoso” e “enrola” ao máximo para fazer qualquer dever ou atividade mais monótona.

Apesar de todos esses sintomas, a mãe não acha que o filho deva ter déficit de atenção, porque, curiosamente, o João consegue ficar horas prestando atenção no jogo de videogame.

Esse é um quadro clássico que ilustra muito bem os sintomas centrais. O João apresenta hiperatividade, que pode ser observada pelos sintomas motores: fica se mexendo, não para no lugar. Além disso, tem sintomas de desatenção: perde material escolar, não termina as tarefas, procrastina. E apresenta impulsividade: fala fora de hora, interrompe a professora.

E, apesar da desatenção, o João apresenta períodos de hiperfoco e, por isso, consegue se manter por horas em atividades de interesse.

Quando o quadro é típico e apresenta todos os sinais e sintomas como o descrito, na maioria das vezes o diagnóstico pode ser estabelecido por um profissional sem maiores dificuldades. Porém, nem todos os pacientes apresentam todos os sintomas de forma clara.

É comum, por exemplo, que na fase pré-escolar, principalmente dos 3 aos 5 anos, algumas crianças apresentem um comportamento mais agitado, sem sintomas de desatenção evidentes. Muitas vezes, saber o motivo dessa agitação pode ser difícil até mesmo para o especialista.

Ou seja, nem sempre essas crianças estarão agitadas devido a um transtorno, e nem sempre esse transtorno será um TDAH. Algumas crianças ou adolescentes que apresentam desatenção e agitação, por exemplo, podem ter esses sintomas devido a um quadro de ansiedade.

Portanto, caracterizar se sintomas de desatenção, agitação ou hiperatividade são parte de um transtorno específico nem sempre é uma tarefa fácil e pode demandar uma avaliação especializada minuciosa e, por vezes, necessitar de testes neuropsicológicos específicos para uma melhor compreensão do quadro.

Atualmente, discute-se muito no meio acadêmico o diagnóstico excessivo e a indicação inadequada do tratamento do TDAH. Pesquisas apontam que há tanto pacientes sem diagnóstico bem estabelecido usando psicoestimulantes excessivamente quanto pacientes que poderiam se beneficiar de um tratamento específico e não estão sendo tratados.

Ou seja, cada caso deve ser avaliado de forma muito criteriosa para se evitar o diagnóstico inadequado e a “hipermedicação”, mas também não deixar de tratar os pacientes que se beneficiariam.

O tratamento bem indicado e adequado (tanto medicamentoso quanto o não medicamentoso) garante uma melhor construção de autoestima para a criança e auxilia no desempenho na vida prática, social e escolar, repercutindo em um melhor desenvolvimento na fase adulta.

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Referência em transtornos do Neurodesenvolvimento – Autismo e TDAH CRM 187775 | RQE 687881 | RQE 68788